O
texto “A coisa” objetiva traduzir as questões envoltas a objetivos que devem
ser atingidos em forma de bens, visto que “a coisa”, no contexto filosófico,
está correlacionada a todos os objetos ou bens que se deseja adquirir ou
alcançar.
Imagem do filme "A CABANA". Disponível em: <http://palavrasproliferas.blogspot.com/2017/05/opiniao-sobre-o-filme-cabana.html>
Porém,
ao realizarmos uma contextualização sob os parâmetros da psicanálise observa-se
que não existem questionamentos acerca de escolhas positivas ou negativas no
que tange “a coisa”, mas sim em que local ela se enquadra na vida de cada
indivíduo, e como tal bem é desejado pelo mesmo, o que de acordo com Freud chama-se
“das ding” e de acordo com Heidegger, “a coisa” seria um acontecimento com
riscos.
Observa-se,
também, que na concepção do filósofo Lacan “a coisa” se contextualiza como algo
do qual não se pode capturar, e com isso quando a mesma se interrelaciona com
as questões éticas, acaba sendo dissolvida, pois é totalmente integrada e
conexa as subjetividades do sujeito, que na busca pelo seu objeto de desejo
acaba sendo reprimido pela lei e, consequentemente, deixa de manifestar suas
vontades.
A
fim de contextualizar a situação e tornar tais idéias mais solidificadas, vale
se utilizar de uma situação que a maiorias das pessoas, se já não passaram,
virão a passar, que consiste na perda de um ente querido mediante uma morte
trágica e/ou inesperada. Situação que requer que os indivíduos busquem uma nova
realidade, ou um novo objeto, ou uma nova situação, ou um novo sujeito que
supra todo aquele vazio e aquela dor oriundas da perda, a fim de transformar
aquele universo de dor, sofrimento e vazio, semelhante a um buraco negro, em
algo mais tolerável, trazendo possibilidades e dando fluidez áquela vida que no
momento da perda deixou de ter sentido e trouxe ao indivíduo inúmeras questões,
socialmente, sem respostas plausíveis, coerentes e sensatas. Questionamentos
esses que ocorrem tanto internamente como externamente, e se traduzem no
indivíduo e no contexto social em que ele vive, possibilitando, assim, que os
sentimentos dele se misturem e se confundam, dificultando a distinção do que é
interno ou externo a ele. Assim, “a coisa”, no momento em que não pode ser
traduzida em realidade ou imaginação, faz com que o indivíduo utilize do
princípio do prazer para suplantar seus vazios, podendo até mesmo ser
ratificado por uma depressão, tendo em vista que o indivíduo possui carências
biológicas e reproduções mentais que o motivam.
Destarte,
o filme “A Cabana”, dirigido por Stuart Hazeldine, um ótimo meio de ilustrar o
contexto supramencionado, pois ele traz a história de um homem que em sua
infância foi espancado pelo pai, que era alcoólatra, e, também, via sua mãe
apanhar mesmo. Ocorre, que em determinado momento de sua vida, ele pediu a Deus
para que tais situações parassem de acontecer e diante de tal postura foi
castigado arduamente pelo seu pai, vindo a colocar veneno em sua bebida e
proporcionando sua morte. Acontece que ao se tornar pai e esposo, esse
indivíduo que teve uma infância familiarmente difícil, apesar de amar sua
esposa e seus três filhos demonstra ter deixado de crer em Deus, e ao viajar
com os seus três filhos e sem a sua esposa, que é religiosissíma, tem sua vida,
aparentemente, perfeita e suas crenças movimentadas.
É
possível observar que após perder sua filha mais nova na referida viagem, Mack
se transforma em um homem atormentado diante do fato do corpo da menina não ter
sido encontrado mas terem sido encontradas evidências de que ela havia sido
violentada e posteriormente assassinada em uma cabana nas montanhas que
estavam. E a fim de encontrar a “coisa” que lhe faltava, o relacionamento com
os outros dois filhos e a esposa começam a se dissolver, ocorre que nessa busca
pela “coisa” que lhe faltava, ele recebe um chamado a retornar no local em que
perdeu sua caçula e inicia uma viagem espiritual. E a busca, teoricamente, se
finda após na experiência em que vive com “o pai”, “o filho” e o “espírito
santo”, ele além de conseguir perdoar tudo o que seu pai lhe fez na infância,
encontra o corpo de sua filha e se reconcilia com a figura divina, vindo a
preencher o vazio acometido pela falta da “coisa, momento em que acorda em uma
cama de hospital e inicia o processo de restauração do seu relacionamento
familiar com os outros dois filhos e sua esposa.

Deste
modo, observamos que no desenrolar da história o psiquismo humano é evidenciado
complexamente, sendo os conflitos internos e externos do indivíduo evidenciado
pela sua busca pela estabilização dos mesmos, na qual são desenvolvidas
neuroses que só são preenchidas e reduzida perante o desejo e a vontade de localizar
a “coisa”.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
A
CABANA. Direção: Stuart Hazeldine. Baseado no livro de William P. Young.
PEREZ,
Daniel Omar. A ética da psicanálise [recurso eletrônico]/ Daniel Omar Perez.-
Dados eletrônicos.- Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Secretaria
de Ensino a Distância, 2017.
Imagem do filme "A CABANA". Disponível em: <http://palavrasproliferas.blogspot.com/2017/05/opiniao-sobre-o-filme-cabana.html>
Imagem
do esquema "das ding" estabelecido por Freud. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952011000200007>.
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