De acordo com a filosofia freudiana,
o homem é movido por intermédio das paixões, uma vez que seus mecanismos físico
e racional estão interligados e sob o domínio das causas naturais,
possibilitando que no desenvolvimento da teoria das paixões fosse atribuídas
formas qualitativa e quantitativa. Tal procedimento se torna possível, pois o
ser humano é dotado de um sistema nervoso que é capaz de receber e alimentar
estímulos por meio de partículas materiais denominadas neurônios,
possibilitando o delineamento processual do universo psíquico.
O mapeamento do processo
psicológico, mediante a análise do sistema nervoso, se dá em detrimento da
elevada capacidade que este tem em registrar informações, a partir da excitação/incitação
externa e interna, as quais se correlacionam em todos os aspectos cotidianos
seja no simples ato de respirar ou no de desenvolver sua sexualidade, sendo
necessário o desenvolvimento de mecanismos que contribuam para que as necessidades
do corpo sejam atendidas.
Assim, a capacidade de armazenamento
e gerenciamento dos estímulos ocorre de acordo com a demanda corporal, tendo
como imprescindível o controle excitacional para evitar que as incitações
extracorpóreas intervenham na constância nervosa. Portanto, têm-se que:
“É
justamente a possibilidade desse trânsito, isto é, essa circulação, que permite
considerar a noção de que um neurônio pode estar ocupado num momento e
desocupado em seguida. Dessa forma, o que dá constituição e complexidade à
arquitetura do sistema nervoso é, em primeiro lugar, a conjugação entre a
necessidade de eliminação e a de acúmulo de estímulos; e em segundo lugar, as
resistências que dificultam, ao mesmo tempo em que regulam, a eliminação, isto
é, as chamadas barreiras de contato” (BOCCA,pág. 26).
Em seus estudos, Freud, também, analisou
a dor e deste processo de análise extraiu como conseqüências que a mesma se
deriva de uma falha no
controle excitacional em detrimento do excesso de excitação, que o torna
instável. Para a eliminação da sensação de dor é necessário que o psi (neurônio
responsável pela memória) e phi (neurônio responsável pela percepção) estejam
em movimentação constante e equilibrada.
Observa-se que, além dos estímulos
internos e externos da excitação e das causas e conseqüências da dor, Freud,
também, se deparou com o fato do enigma qualitativo estar inteiramente
interligado ao quesito consciência, o que lhe possibilitou a descoberta do
neurônio ômega, a partir do qual ressaltou:
“o
fato de que seus “estados de excitação
dariam como resultado as diferentes qualidades, ou seja, seriam as sensações
conscientes” (1995, p. 23). Uma postulação dessa natureza foi possível a
partir do reconhecimento de que, ainda que uma ciência natural privilegie
quantidades, cabe, no entanto e adicionalmente, “esperar da arquitetura do sistema nervoso que ele consista de
dispositivos para transformar as quantidades externas em qualidades” (1995, p.
23)” (BOCCA, pág. 30).
Mediante
tais estudos, Freud observou que o ômega era um fator essencial para,
especificamente, escoar o
método de atuação do princípio do prazer, uma vez que ao se transformar em
princípio de constância, evita a possibilidade do surgimento da insensibilidade,
pois, ao serem qualificados, os estímulos contribuem para a geração de agentes
que determinam pensamentos e ações de cunho específico.
Assim, o referido filósofo, em sua análise,
elencou ao problema da consciência, mecanismos físicos, no que tange a
intensidade, bem como as particularidades temporais e periódicas dos estímulos.
Dessa forma:
“pôde
sustentar que o fundamento da consciência estaria relacionado a ela, isto é,
que o sistema Ômega seria afetado segundo períodos de excitação, dando
subsídios para a qualificação operada pela consciência, que assim apresenta
como um de seus conteúdos a série de sensações de prazer e de desprazer” (BOCCA,
pág. 30).
Contudo, a originalidade de Freud, no
que tange ao prazer como fundamento da vida passional, se encontra na
sustentação de que a excitação, em especial, no que tange ao caráter sexual,
também gera o desprazer, contribuindo para uma descarga ou extinção dos
estímulos, o que está inteiramente interligado ao ponto de vista das paixões na
composição psíquica.
Portanto, é nítido que o referido
filósofo conferiu aos estímulos sensoriais o fato de serem, por si só,
desprazerosos, estando inteiramente interligado ao sistema nervoso com o
objetivo de atingir o repouso e, consequentemente, o prazer equilibrado.
REFERÊNCIAS:
BOCCAS,
Francisco Verardi. Paixões e Psicanálise: dimensões modernas da natureza
humana, Vitória:UFES, 2017.
CONDILLAC,
E. B. 1993: Tratado das sensações. Campinas, Ed. Unicamp.
FREUD,
S. 1995/1885: Projeto de uma psicologia. Trad. Osmyr F. G. Jr..
R.
J.: Imago.
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